Salmonelose

5 jul, 2015 por

Salmonelose

Esta é a doença mais grave dentre as infecções provocadas por bactérias, causando um grande número de mortes entre os pombos.

 

SalmonellaA Salmonella apre-senta uma gama muito grande de espécies, aqui nós vamos tratar apenas as que tem mais interesse para nós, como a Salmonella typhi que é a forma mais grave em seres humanos pois é a causadora da febre tifoide que pode levar à morte, porém esta espécie é exclusiva dos seres humanos, os pombos não pegam e não transmitem esta variedade, então vou deixar o Dr Drauzio Varella falar sobre ela. Uma outra Salmonella que nos preocupa é a Salmonella paratyphi, causadora da febre entérica em humanos, menos grave que a anterior, mas também não afeta os pombos.

 

GastrenteriteA espécie que afeta os pombos é a Salmonella typhimurium, em seres humanos ela causa apenas uma gastrenterite, que mais uma vez o Dr Drauzio Varella explica, mas nos pombos ela pode ser mortal, vamos entender porquê?

 

Antes disso, você percebeu alguma semelhança nos nomes dessas bactérias? Isso mesmo, todas elas apresentam o termo typhi, que se pronuncia TIFI, daí a origem das palavras Tifoide e Paratifo ou Paratifose. Atenção não confunda Paratifose com Tifo, são duas doenças diferentes e transmitidas também por bactérias diferentes, o Tifo é transmitido por microrganismos do gênero Rickettsia.

 

Outra coisa, você já ouviu aquela expressão que diz que peixe morre pela boca? Pois é assim mesmo que a Salmonella pega agente, pela boca.

 

Pois bem, o caminho que a Salmonella encontrou para contaminar tanto a nós quanto os pombos foi pelo sistema digestivo, a gente tem que comer (ou beber) essa bactéria para que ela nos contamine. Enquanto ela fica restrita apenas ao sistema digestivo, ela pode provocar febre, vômitos, diarreia, dores abdominais, mal estar geral, prostração, etc. não admira os pombos infectados caírem de rendimento durante os treinos diários, quanto mais em uma prova, mesmo que seja curta. Pombos nesta fase da doença vão chegar sempre atrasados, isso quando chegam.

 

O problema fica mais grave quando essas bactérias conseguem atravessar a parede do intestino e cair no sistema linfático e na corrente sanguínea, pois a partir daí elas podem parar em qualquer lugar do organismo, fígado, baço, rins, vesículas, aparelho reprodutivo, medula óssea e inclusive no cérebro.

 

Em seres humanos somente as S. typhi e S. paratyphi conseguem ir além do intestino, as outras não, por isso são mais perigosas para nós, quanto aos pombos é a S. typhimurium que atravessa o intestino e alcança os vasos linfáticos e também a corrente sanguínea, a partir daí o estrago pode ser grande.

 

EnterosesQuando isso acontece a infecção deixa de ser uma simples enterose e passa a ser o que chamamos de bacteremia, quando as bactérias podem se alojar em muitos locais diferentes.

 

Além de alcançar fígado, baço, rins, vesículas, aparelho reprodutivo, medula óssea e o cérebro, nos filhotes elas tendem a se alojar nas articulações do joelho, Bacteremiavocê percebe isso quando os filhotes passam a não conseguir se levantar dentro dos ninhos e tentam utilizar as asas como apoio. Já nos adultos, tendem a se localizar nas articulações do cotovelo, provocando uma inflamação que interrompe os movimentos das asas e a partir daí seu pombo não voará mais. Em casos mais graves elas podem alcançar o cérebro, causando inflamações na meninge, que podem provocar a perda da coordenação motora e também cegueira, neste estágio o pombo apresenta torções do pescoço, como se estivesse com torcicolo e manobras estranhas durante os voos, parecendo um pombo da raça cambalhota que faz acrobacias enquanto voa.

 

Quando a Salmonella afeta os joelhos dos filhotes e as asas dos adultos, sua identificação é quase precisa, mas cada pombo pode ser afetado pela Salmonella de forma diferente, nem sempre apresentando os mesmos sintomas, isso sem falar que podem não apresentar um ou outro, muitas vezes fazendo parecer que dois pombos em um mesmo pombal tenham doenças diferentes, embora os dois estejam contaminados com a Salmonella.

 

Alguns morrem logo que começam a apresentar os sintomas, principalmente filhotes, as vezes morrem tão rápido que não dá nem para perceber que estavam doentes, enquanto outros sobrevivem e parecem não ter sido afetados pela doença.

 

Nos pombos estas bactérias podem persistir no trato digestivo por muitos meses sem evidências de sinais clínicos, além de que, os pombos que se recuperam, nem sempre conseguem eliminar do organismo as bactérias, transformando-se em agentes contaminantes, por onde quer que andem. Mas calma, você não precisa eliminar esses pombos por causa disso, o controle com probióticos pode impedir que estas bactérias se manifestem enquanto o pombo viver.

 

Devido aos múltiplos sintomas que esta doença pode apresentar em seus vários estágios e também por conta das diferentes estirpes Estirpeque causam sintomas diferentes, é comum ela ser confundida com a Paramixovirose, com a Ornitose, com a Coccidiose, com uma Parasitose e ainda com a forma orgânica da Tricomoníase, além da doença de New Castle que é uma das manifestações da Paramixovirose. Por esse motivo é fundamental uma investigação laboratorial, através do exame bacteriológico das fezes para que seja confirmada a doença, saiba como fazer este exame na Instrução Normativa IN 78 do Ministério da Agricultura.

 
Mas como é que nossos pombos pegam isso?

Lembra quando eu falei que peixe morre pela boca, pois é pelo bico que nossos pombos se contaminam, e os bacilos contagiosos se encontram nas fezes contaminadas, então para que nossos pombos peguem salmonelose eles têm que comer cocô, e ainda tem mais um detalhe os efeitos da Salmonella só derrubam nossos pombos se eles comerem muitas bactérias de uma vez, quanto maior a quantidade de bactérias ingeridas maiores serão os sintomas.

 

Um dos principais pontos de contaminação são os transportes, quando os pombos de vários criadores se juntam e o contato com as fezes de outros pombos, no fundo das gaiolas, é inevitável. Muitos pombos vomitam, as sementes se misturam com as fezes, aí já viu né, se estiver contaminado o pombo que comer vai ser afetado.

 

Embora a maioria dos criadores estejam atentos aos seus pombos, muitos não sabem reconhecer quando um pombo está doente e sempre há a possibilidade de contaminação por várias doenças durante o transporte.

 

A doença pode vir também pela introdução de um pombo que você comprou de outro criador, ou um pombo extraviado que entre no pombal.

 

Resumindo, você não tem como impedir que seu pombo coma eventualmente alguma salmonella, mas pode evitar que coma em grandes quantidades. Em pequenas quantidades o próprio sistema imunológico de um pombo com saúde pode dar conta de eliminar os invasores através das imunoglobulinas do tipo IgA, secretadas pelas vilosidades dos intestinos, daí a importância do uso de vacinas que aumentem a produção destes anticorpos, para combater a Salmonella antes que ela consiga atravessar a parede do intestino, assim como o uso sistemático de probióticos e prebióticos, que podem impedir a colonização do intestino por essas bactérias. O controle da Salmonella através de probióticos e prebióticos é o que oferece o melhor custo-benefício e o criador que faz uso deste recurso corre menos riscos de ter seu pombo contaminado durante o transporte para as provas.

 
Algumas alternativas para o controle da Salmonella.

Como acabei de falar aqui em cima as vacinas são uma alternativa, e a vacina indicada neste caso é a Poulvac® ST da Zoetis, específica para Salmonella typhimurium, esta vacina é importada.

 

Preste atenção que existem outras vacinas contra a Salmonella, que não são de interesse para os pombos, pois imunizam contra cepas diferentes, como a Galivac SE da Merial que imuniza contra a Salmonella enteritidis, a BIO-GALLINARUM 9R da Bio-Vet que imuniza contra a Salmonella Gallinarum Cepa 9R. Embora os pombos também possam se contaminar com estas cepas, sua infecção fica limitada ao sistema digestivo, e outras medidas se tornam mais eficazes, como a aplicação de Beta-glucanos na alimentação, substâncias abióticas que ajudam a regular a resposta imune (HASHIMOTO et al., 1991) e (LOWRY et al, 2005). Atente também que só devem ser vacinados pombos sadios, pois vacina não é remédio, é preventivo.

 

BiocidBioforO uso de desinfetantes também é muito importante para eliminar ou inibir o crescimento não só da Salmonella, mas de outros microrganismos. Compostos de amônia quartenária e hipoclorito de sódio são produtos bastante utilizados na higienização em avicultura. A utilização de cloro, especificamente compostos contendo sais do ácido, como o tricloro isocianúrico, são eficazes na prevenção da colonização intestinal por Salmonella, principalmente quando utilizados na água de bebida e na desinfecção dos pombais. Estudos comprovam que produtos à base de formaldeído e cloro associado ao fenol são efetivos na eliminação de cepas de Salmonella Enteritidis (GUASTALLI & GAMA, 2004). Eu particularmente faço uso do Biocid da Pfizer ou do Biofor da Chemitec, que são à base de iodo, clique nos frascos para ver a bula.

 

Agora o método que prefiro utilizar é o da Exclusão Competitiva, este método consiste nada menos que inserir no sistema digestivo dos pombos outros microrganismos que irão disputar com a Salmonella e outros agentes patogênicos o espaço intestinal, os probióticos, saiba mais sobre eles aqui neste artigo que escrevi. Atente que você deve usar um ou outro, pois tanto o cloro quanto o iodo eliminam também os probióticos, e neste caso você iria jogar dinheiro fora.

 
O que eu posso fazer para impedir que meus pombos se contaminem?

Como a via de transmissão é a fecal oral, ou seja é através da ingestão de fezes contaminadas que acontece a infecção. Então é importante mantermos nossos pombos longe das fezes, sendo assim é fundamental que haja uma tela ou gradeado no fundo do pombal que impeça o contato dos pombos com suas próprias fezes, esta tela ou gradeado deve ser alta o bastante do piso, para impedir que os pombos tenham acesso aos restos de ração que possam cair do comedouro. Também não tente aproveitar sobras de ração que caíram no fundo do viveiro, mesmo que esse pareça limpo, muito menos ofereça esta sobra para as galinhas, nem permita que outros pássaros como pardais e rolinhas tenham acesso a ela.

 

Não deixe a comida nem a água a disposição dos pombos o dia inteiro para evitar que defequem sobre a sua própria alimentação ou recipientes, coloque apenas o que eles vão comer e retire os comedouros e bebedouros assim que terminarem, faça também a higienização deles sempre, antes e após o uso, veja aqui o artigo sobre a higienização da água.

 

Se usar caixa de areia para os pombos, assar a areia no forno antes que os pombos tenham acesso, a Salmonella não é muito resistente ao calor e muitas vezes apenas a exposição ao sol já é suficiente para eliminá-la, mas o sol não é um método confiável.

 

Outro cuidado importante que se deve ter é o que se leva e traz para dentro do viveiro na sola dos pés, muitos criadores não se atentam para isso, porém este é um dos maiores meios de contaminação, Pedilúvioprincipalmente para quem tem próximo ao pombal outra criação, como galinhas, patos, marrecos, porcos, cães, gatos, cabritos, cavalos, gado e principalmente, lagartos e tartarugas, que são os principais disseminadores da Salmonella, para tanto, faça um acesso individualizado para o pombal e coloque na entrada um pedilúvio.

 

Como nós vimos o maior problema da Salmonella é quando ela deixa de ser uma simples infecção intestinal e se torna uma bacteremia, e que a bacteremia é provocada por uma cepa de Salmonella específica em cada espécie animal, e que alguns animais não se contaminam com outras cepas. Por exemplo, a bacteremia no homem é causada pelas S. typhi e S. paratyphi, nas galinhas são as S. enteritidis e S. Gallinarum, em outras aves é a S. pullorum, nos porcos é a S. cholerae-suis, no gado é a S. dublin, e finalmente nos nossos pombos é a S. typhimurium. Agora existem duas dessas espécies que podem colonizar o trato gastrointestinal de quase todas as espécies animais, inclusive o homem, provocando infecção intestinal que são a Salmonella typhimurium e Salmonella enteritidis. Praticamente todos os animais podem se infectar com a S. typhimurium, ter uma enterose e sair defecando a bactéria em tudo que é lugar, isso quer dizer que a Salmonella typhimurium pode estar em qualquer lugar e que qualquer animal, inclusive nós, podemos ser agentes infectantes para os pombos.

 

Agora você já pode entender porque os pombos são tão vulneráveis à salmonelose, todo bicho pega e distribui a Salmonella typhimurium, mas só o pombo morre por causa dela.

 
Danou-se, meus pombos já estão infectados, o que eu faço agora?

A primeira coisa a se fazer é saber se seus pombos realmente estão infectados com a Salmonella, e para isso, só um exame laboratorial, através do teste de Elisa e/ou de PCR. Depois de confirmada sua presença, siga a orientação do seu veterinário, pois tanto o tipo de medicação quanto a dosagem recomendada, vão depender do tipo de cepa ou estirpe que infectou sua colônia, assim como sua localização no organismo do pombo e a quantidade de bactérias que o infectou. Você pode tirar suas dúvidas sobre como colher material e enviar para análise na Instrução Normativa IN 78 do Ministério da Agricultura e encontrar algumas formas de tratamento no site da Chevita.

 

Outras medicações que podem ser usadas com indicação de Médico Veterinário!
Por se tratarem de antibióticos ou antimicrobianos, alguns dos medicamentos abaixo tiveram seu uso restringido ou até mesmo proibido em determinadas regiões ou países, além de que alguns deles são de uso humano.

Quemicetina (cloranfenicol)
Cloramina (monocloramina)
Baytril (enrofloxacina)
Norkil (norfloxacina)
Sulfametoxasol
Trimetropim
Borgol
Trimexasol
Tetraciclina
Terramicina
Gentamicina
Ampicilina
Floxacina

 

Este artigo não encerra o assunto sobre a Salmonelose, ainda há muito a ser dito, porém procurei falar dos pontos que realmente são de maior interesse para columbófilos, por isso para um melhor entendimento foram citadas outras espécies animais, assim como outros sites de interesse.

 

Aviso Legal

 

REFERÊNCIAS:

 

GUASTALLI, E. A. L. & GAMA, N. M. S. Q. Eficácia de produtos desinfetantes contra Salmonella Enteritidis. Arq. Inst. Biol., São Paulo, v. 71, (supl.), p. 582-584, 2004.

 

HASHIMOTO, K.; SUZUKI, I; YADOMAE, T. Oral administration of SSG, A B- glucan obtained from Sclerotinia sclerotiorum, affects the function of Peyer’s patch cells. International Journal of Immunopharmacology, v. 13, n. 4, p. 437-442, 1991.

 

LOWRY, V.K. et al. Purified β-glucan as an abiotic feed additive up-regulates the innate immune response in immature chickens agains Salmonella enterica serovar Enteritidis. International Journal of Food Microbiology, v. 98, n.3, p. 309-318, 2005.

 

SHINOHARA, Neide Kazue Sakugawa; BARROS, Viviane Bezerra de; JIMENEZ, Stella Maris Castro; MACHADO, Erilane de Castro Lima; DUTRA, Rosa Amália Fireman; FILHO, José Luiz de Lima – Salmonella spp., importante agente patogênico veiculado em alimentos – Temas Livres. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/csc/v13n5/31.pdf acessado em 23/06/2015

 

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